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· Triathlon · 3 min de leitura

Ironman 70.3 São Paulo e nossa mania de comparação

Abaixo de 4h50 e frustrado, acima de 6h e realizado. O que o IM 70.3 São Paulo revela sobre comparação no triathlon.

Diagrama das três etapas de um IM 70.3: 1,9 km de natação, 90 km de ciclismo e 21,1 km de corrida, totalizando 113 km.IM 70.3 — DISTÂNCIA OFICIAL113 KMNUMA ÚNICA MANHÃ. PROPORÇÃO REAL DAS TRÊS ETAPAS.01 — NATAÇÃO1,9 KM02 — CICLISMO90 KM03 — CORRIDA21,1 KM

Nos últimos dias, meu feed foi tomado pelo IM 70.3 São Paulo. Milhares de posts, de atletas de todos os níveis. Resultados, fotos de chegada, relatos longos. No meio de tudo isso, um padrão chamou atenção.

Ponte Octávio Frias de Oliveira, a Ponte Estaiada, em São Paulo, em preto e branco, com a avenida e prédios ao fundo.
Ponte Octávio Frias de Oliveira, São Paulo Foto: Odinei Ribeiro / Unsplash

01Mesma prova, leituras opostas

De um lado, atletas abaixo de 4h50 falando em prova ruim. Problema na transição. Câimbra no km 18. Um plano que não saiu como previsto. Alguns usaram a expressão "gosto amargo".

Do outro, atletas acima de 6h cruzando a linha como quem venceu. Braços para cima. Choro na chegada. Um desafio que era, antes de tudo, contra eles mesmos.

Mesma prova. Mesma distância. Mesmo percurso. Leituras opostas.

Não tem nada de errado em querer mais. Ambição é parte do esporte. É o que tira a gente da cama às 5h, com frio, para nadar antes do trabalho. Quem busca um tempo melhor não está errado por se frustrar quando ele não vem.

O problema é outro. É quando a frustração apaga o tamanho do que foi feito.

02113 km não são normais

Um 70.3 são 1,9 km nadando, 90 km pedalando e 21,1 km correndo. São 113 km numa única manhã, sem parar.

Para chegar à largada, um atleta amador costuma treinar entre 8 e 12 horas por semana. Por meses. Encaixando treino entre trabalho, família, sono e o resto da vida.

Nada nisso é normal. Só que, depois de alguns ciclos nessa distância, começa a parecer.

A primeira prova é um feito. A segunda, uma confirmação. Na terceira, a distância já não assusta. E quando a distância para de assustar, a régua muda de lugar. A prova deixa de ser medida pelo que ela é. Passa a ser medida pelo tempo do outro.

03O feed mostra o treino, não a vida

Somos expostos todos os dias a treinos, rotinas e resultados de outras pessoas. Pace, watts, volume semanal, tempo final. E nos comparamos a partir do pouco que enxergamos.

Vemos o treino do outro. Não vemos quantas horas ele dormiu. Não vemos se ele trabalha 10 horas por dia ou 4. Não vemos se ele tem filho pequeno em casa. Não vemos há quantos anos ele nada, nem o histórico de lesão que ele carrega.

Também não vemos o que aconteceu no dia. O tempo final de uma prova depende de variáveis que quase ninguém posta. Calor, vento, altimetria, a água, a noite anterior, a semana anterior.

Ninguém larga do mesmo ponto. Condições diferentes geram resultados diferentes. Isso não é consolo. É matemática.

Comparar tempo final entre pessoas com condições diferentes é comparar números que não medem a mesma coisa. É a receita mais direta para a frustração.

04Número mede a prova, não quem a fez

Aqui na KODRA, a gente trabalha com número o tempo todo. Gramatura, resistência, tempo de secagem, costura. Acreditamos em dado mais do que em adjetivo.

E foi justamente trabalhando com número que aprendemos uma coisa. Todo número tem uma condição de teste. Sem saber a condição, o número não diz nada.

Seu tempo no 70.3 é um dado. Ele diz como foi a sua prova, naquele dia, naquelas condições. Ele é útil para você se comparar com você mesmo. Com a sua prova anterior, com o seu último ciclo, com a sua evolução.

Ele não diz quem você é. E não diz nada quando colocado ao lado do tempo de alguém que viveu uma preparação completamente diferente.

Se o objetivo é evoluir, a comparação que funciona é simples. Você hoje contra você no ciclo passado. O resto é ruído.

05A linha de chegada continua pesando

Completar uma prova dessa distância já é motivo de comemoração. Sempre foi.

Quem fez menos de 4h50 e saiu frustrado merece olhar de novo para o que fez. Quem fez 6h30 e saiu chorando de felicidade entendeu algo que o feed às vezes faz a gente esquecer.

A linha de chegada de um 70.3 nunca vai ser normal. Que ela continue pesando.